Pular para o conteúdo
Thais AzevedoNeuropsicopedagoga

Controle inibitório: o desafio de esperar no autismo

Por Thais AzevedoPublicado em 20 de maio de 2026Última atualização: 25 de junho de 2026

Reflexões a partir das minhas vivências na AMA — Associação Amigos do Autista. Os nomes das crianças foram trocados por nomes fictícios para preservar sua privacidade.

“Espere 5 segundos. 1, 2, 3, 4 e 5. Parabéns! Você esperou!”

Parece algo simples, mas quantos de nós não ficamos com o coração acelerado com essa espera? É o aplicativo que abrimos várias vezes esperando o carro chegar, como se isso o fizesse chegar mais rápido. É o elevador que demora quando estamos atrasados e apertamos o botão compulsivamente.

O que é controle inibitório

O controle inibitório é uma habilidade cognitiva que envolve a capacidade de controlar impulsos e comportamentos. Em autistas, o córtex pré-frontal — responsável por inibir impulsos — funciona de forma diferente, devido a alterações na atividade, conectividade ou receptores dessa área. De forma resumida: aquela dificuldade que temos para não apertar o botão do elevador de novo, uma criança autista também tem, mas de forma muito mais intensa.

Na Sala 2 da AMA, 6 crianças de 7 a 11 anos, autistas e não verbais, treinam de segunda a sexta habilidades de coordenação motora fina, de pareamento e o que chamamos de habilidades críticas — entre elas, o saber esperar.

Um plano individualizado para cada criança

Cada criança tem um plano semestral e individualizado de intervenção. Um dos pontos considerados é o “comportamento selecionado”: aquele que a criança tem mais dificuldade de controlar. Para o Davi, é balançar-se na cadeira. Para o Heitor, é deitar-se no chão e a ecolalia (repetir frases ou palavras ouvidas antes, ainda que fora do contexto).

Para cada criança e cada comportamento, há uma estratégia. No caso dos movimentos do Davi, é a massagem com bolinha. No caso da ecolalia do Heitor, é trazê-lo de volta ao foco com comandos específicos: “Heitor, toque sua cabeça. Agora toque sua barriga. Agora bata palmas. Muito bem. Agora, vamos voltar para a atividade.”

A sala possui três centros, e os assistidos rotacionam entre eles a cada 10 minutos: a Mesa de Aprendizagem (atividades individuais, com uma cartela de velcro que termina em um pequeno prêmio), a Mesa de Grupo (atividades em dupla ou trio, treinando esperar a vez) e o Descanso (segundos de massagem e de espera).

Eles se comunicam nos detalhes

“Ah, mas eles não falam. Como se comunicam?” Se comunicam nos detalhes! Davi faz bastante contato visual, olhando profundamente nos olhos e sorrindo enquanto ganha massagem. Arthur conhece as pessoas abraçando-as para sentir a textura de suas roupas. Heitor interage sorrindo quando alguém faz contato visual com ele.

Durante as atividades, Heitor deitou-se no chão e repetia uma canção em inglês com pronúncia impecável, alternando com os números: “One… Two… Three… Four… Five! Five!”, e olhava para mim, sorrindo. Mais tarde, no parque, parecia focado, procurando algo perto da árvore. Na hora de subir, veio até mim, sorrindo, com pequenas folhas na mão. Estendeu a mão e disse “Five!”, mostrando que tinha 5 folhas.

Pode parecer simples, mas, em apenas uma hora, a turma demonstrou saber quantificar, olhar nos olhos, sorrir como resposta afirmativa, observar o outro, interagir e esperar — habilidades que muitos de nós, adultos neurotípicos, lutamos diariamente para melhorar.

Parabéns, turma da Sala 2! Cada um à sua maneira, vocês evoluem diariamente e nos ensinam tanto.

Vamos conversar sobre o seu filho?

Tire suas dúvidas e descubra como o acompanhamento neuropsicopedagógico pode ajudar. O primeiro contato é sem compromisso.